sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Meu Povo: Marcos Serra

Tenho medo de no futuro ter o Mal de Alzheimer. Talvez seja esse o motivo de escrever minhas lembranças na forma deste blog. Uma maneira de perpetuar e dividir tanta coisa que guardo com carinho nesta cachola já corroída pelo viver intenso.

Lembro-me de Marcos Serra ainda menino. Morava na minha rua com seu tio e sua tia. Era um molecote franzino, carinha de intelectual e muito na dele. Umas das lembranças mais marcantes deste período foi um carnaval. Eu e ele deveríamos ter uns 13 anos.

Depois de muito pedir aos meus pais, ganhei uma fantasia de Bate-Bola (em São Paulo Clóvis e equivalente aqui ao nosso Papa-Angu). Fiquei radiante! Como dizia meu pai: “O melhor da festa, é esperar por ela!” saíamos bem antes do carnaval chegar, já fantasiados pelo bairro, para assustar a molecada e ser assustados pelas Bruxas (outra gang de Bate-bolas só que formada por rapazes mais velhos e com trajes muito bem acabados e com vários detalhes, incluindo aí uma vasta cabeleira e um chapéu de bruxa). “Cariri Não!” era seu grito de guerra e start para o nosso pânico.

Eu e minha turma perambulávamos sedentos pela nossa rua, quando vimos um casal de irmãos sentados na porta de casa e resolvemos aterrorizá-los correndo em sua direção, batendo nossas bexigas plásticas no chão fazendo aquele barulho enorme de trovão. A menina começou a chorar, no que de dentro de sua casa rasga o barulho a voz de Marcos Serra: “Tenham vergonha! Vão ficar assustando as crianças! Saiam daqui agora!!” e todos meus amigos se calaram. Ninguém teve coragem de enfrentá-lo. Saímos com os rabinhos entre as pernas, com comentários tipo: “cara babaca”... Mas na verdade todos ali estavam admirados de sua coragem. Enfrentar um grupo de Bate-bolas, desmascarado!

Esta parábola define o que penso do homem Marcos Serra.

O ator, eu conheci mais tarde, no Daniel’s Bar no início dos anos 90. Já quase adultos na época de nosso desbunde. Ficamos amigos e vivemos muitas viagens juntos naqueles loucos anos. Eu no Desmaio Públiko e ele no Agito Cultural (alguém me disse há pouco tempo quando fui ao Rio que existia uma rivalidade velada entre a gente, mas juro que não sabia ou se sabia não me lembro) agitávamos a cidade com nossas performances.

Vi Marquinhos atuar em várias peças. A primeira foi Calidoscópio (o nome era esse mesmo) de Ileci Ramos Filho. Depois, ele e Alexandre Brollo fizeram Barrafunda no projeto Desmaio Públiko e a mesma esquete com Kátia Vidal em outro momento no Bar Saca-Rolha. E vieram peças e mais peças. Até chegar a Quixote, O Dom da Loucura. Que merecerá um post só dela em breve, e sua atuação um parágrafo único.

Marcos Serra representaria Dom Quixote, narrado como um europeu esquálido e frágil. Marcos é negro, estava com uns pesinhos a mais, dreads e conseguiu fazer o melhor Dom Quixote que já vi em toda a minha existência. Vê-lo em cena era emocionante. A loucura dominando o personagem, a arrogância, o arrependimento, o brilho e as chamas no olhar, o falar sozinho no palco quando não era dele a fala, o enxergar do nada. Fico arrepiado ao lembrar-me de uma atuação brilhante. Portentosa. Até então, imbatível para mim.

“Até então” porque não esperava por Benjamim de Oliveira, o palhaço!

Era o último dia da peça Benjamim no teatro da faculdade UNI-Rio na Urca e Marcos havia nos convidado para a estréia. Tinha que ir. Ele era o protagonista novamente, anos depois de Quixote. Entre as duas obras teve a adaptação para o teatro do livro Desabrigo de Antônio Fraga. Chovia cântaros quando saí de Nova Iguaçu e só piorou na Dutra, na Avenida Brasil (que parecia um lago) carros enguiçando, até no viaduto da Perimetral tinha poções e o Aterro do Flamengo estava embaixo d’água. Mas o “Sardinha” (meu Corsa) era guerreiro como um Fusca e passou tranqüilo. Cheguei tenso.

Marcos Serra e seu Benjamim de Oliveira dissiparam toda e qualquer tensão. Numa representação sublime, Marquinhos circulou por todas as épocas da vida do primeiro palhaço negro do Brasil. Criança, adolescente, adulto, velho. Inocente, curioso, arrogante e nostálgico com habilidade espantosa Marcos em uma das cenas mais brilhantes de sua carreira, entra e sai de personagens em frações de segundos quando interpreta as lembranças de um Benjamim já cansado a beira da morte. Bravíssimo. Aplaudi de pé com um sentimento de orgulho como se tem por um filho!

Marcos Serra esteve aqui em Recife e o centro da cidade nunca mais foi o mesmo depois de seu furacão. Junto aos seus alunos da Oficina de Intervenções Urbanas, fez várias performances num sábado de manhã deixando os transeuntes boquiabertos!

Este é Marcos Serra. Meu povo. Salve Valadão!!!

7 comentários:

silvana disse...

Tive o prazer de estar numa apresentação dele em "Quixote...", realmente emocionante!!!!! A peça toda muito bem montada e ele totalmente entregue. Boa lembrança, Cézar!

André Gonçalves disse...

Vida aos bons!

Luiz Vaz disse...

Marcos, Serra, é uma linha escarpada, um gráfico que sobe, deixando marcos na serra!

Marcos disse...

Sei que já disse isso mas quero repetir:
To muito emocionado!
Não é vaidade não... é que é tão bom quando amigos nos fazem lembrar daquilo que os outros insistem em fazer-nos esquecer: o que realmente somos!
Obrigado por me emocionar.
Bj grande!
Ahh! E sobre uma possível rivalidade com o Desmaio, acho que quem lhe falou pirou!

Carolina Matielo disse...

Quando leio esses relatos,fico mais confiante. Ter participado um bocadinho desta história e conhecer seus personagens, faz-me sentir maravilhada por ter vocês na história da minha vida. O talento de vocês é uma inspiração para os tempos difíceis! Parabéns ator e autor!!!!

Denise disse...

Embora tenha morado em Nova Iguaçu eu só conheci Marcos Serra aqui e tive o prazer de ver um pouco do que ele é capaz com uma sequência de intervenções urbana nas ruas de Recife, ele e seus alunos que não escondiam olhares de admiração.

Jr júnior disse...

Rapaz... EU TAMBÉM FUI CARIRI !!!!kkk
Talvez o maior de todos os cariris.
Vistia uma calça de malha,fazia um furo num lençol velho da minha mãe, jogava-o sobre o corpo, como um manto,colocava luvas, meião sobre a calça,tenis e máscara de bate-bola !!!kkk e ainda era capaz de gritar a todo pulmão: CARIRI NÃO, HEIN !!!rsrs
Beijão Brow, beijão Markinhos (com K de Públiko)bons tempos,bons tempos !